Terça-feira, Maio 27, 2008

E o novo Indiana Jones ein? Vocês entenderam alguma coisa?

Spielberg está irreconhecível debaixo de todas aquelas formigas do rancho LucasFilm. Não que ele seja um autor cujo toque aparece reluzente em tudo o que faz. Na verdade, o tipo de reconhecimento que encontramos em seus filmes é principalmente a garantia de ir ver mais um produto impecavelmente acabado e a certeza de que, para o bem ou para o mal, ninguém faria aquilo melhor [ou pior] do que ele. E é justamente esse tipo de conforto que não encontramos no novo Indiana Jones.

Dá até uma dor no coração dizer isso: Spielberg nunca esteve tão próximo da não-autoria. Nunca pareceu tanto com seu amigo George Lucas que, em termos práticos, significa parecer com um grande nada. Já há algum tempo eles compartilham suas excentricidades – como as “revisões” que fizeram de seus filmes-axiomas, Et e Guerra nas Estrelas IV [como é constrangedor escrever essa nova numeração] – mas esse Indiana Jones é um encontro consumido até o talo. É uma geladeira arremessada no deserto, um passeio de cipó com os macacos e uma descida nas cataratas do Amazonas. Ou seja, ele é um qualquer-coisa, um escargot fazendo nado sincronizado.

Como explicar esse Indiana Jones? Como aceita-lo sem considerar Munique [uma jóia que nem Clint Eastwood faria melhor]? Quer dizer, o filme me desapontou em alguns aspectos – como obra de Spielberg, como parte de uma série e como filme de gênero – mas gostar ou desgostar parecem ser reações absolutamente medíocres e desinteressantes em relação ao tipo de experiência ofertada por ele. Os argumentos são impossíveis; descrevê-lo é como relatar a visão do tal escargot na piscina.


O momento mais [ou único?] old school do Indiana 4.

Por outro lado, me parece um filme irrepreensível pois ele [Spiu] é o tipo de sujeito que, em recompensa à todas as coisas boas que nos deu, pode fazer tudo, não há mais limites, desaparecem o bom cinema e o mau cinema. Ele pode, inclusive, desrespeitar sua própria obra, preencher suas imagens com o que há de mais podre e desumano e mesmo assim tudo será perfeitamente defensável. E por isso, eu também a-d-o-r-o este Indiana Jones Quarto, pois ele me mandou tomar no cu e mesmo assim não me ofendeu.

Quando os créditos finais subiram, lá estava eu no cinema: não sabia se tinha lavado a alma ou se aquilo era uma ressaca fela-da-puta. O filme que começou duas horas antes, com a logo antiga da Paramount, os créditos iniciais idênticos aos dos Jones anteriores e uma divertida cena de abertura, não era o mesmo filme que estava terminando. A culpa é toda do homenzinho da projeção. Ele se atrapalhou todo lá em cima e passou Piratas do Caribe 3 no lugar de Indiana Jones. E ninguém no cinema percebeu, que coisa.


E agora, ele, Shia LaBeouf, o definitivo malandro classe média americano. Esse ator é muito engraçado. Ele faz sempre o mesmo papel, mas parece extraordinário em cada um deles. Será que ele está sempre interpretando ele mesmo?

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Terça-feira, Maio 06, 2008

Pai, do que você é capaz?
M. Night Shyamalan ∙ Parte I

Com o novo Shyamalan chegando, me pareceu oportuno re-visar seus outros filmes e re-afirmar o conceito que tenho dele na minha cabecinha. M. Night, ao contrário do que escrevi sobre Mario Bava [aliás, sobre todos os filmes pré-eu], é um autor do meu tempo – eu o vi nascer em seus filmes e, espero, ainda estarei vivo quando lançar seu último – e, por isso, posso falar sobre ele com a credibilidade de quem estava lá, no calor do momento.

O que tentarei nesses posts é enxergar a filmografia de Shyamalan como uma obra, isto é, um conjunto coerente de peças que evidenciam, todas juntas, quem é o artesão que as criou. Concordando com o que alguns críticos gostam de afirmar, acredito que M. Night seja mesmo um dos poucos diretores americanos da atualidade a trabalhar com um rigoroso “projeto de cinema”, e seus filmes têm sempre o poder de tese [sobre o assunto, recomendo este link], o que nos estimula ainda mais a pensar sobre eles.

Ao que interessa então.



Há uma cena em Corpo Fechado (2000), perto de seus vinte minutos de filme, que me intrigou desde quando o vi pela primeira vez. O segurança David (Bruce Willis), acompanhado de seu filho, vai ao escritório de Elijah (Samuel L. Jackson) curioso a respeito das mensagens que este desconhecido lhe enviara. Na ocasião, Elijah explica sua teoria do super-herói a ambos. Sua fala, desconexa, envolve um pouco de histórias em quadrinhos, indústria cultural, mortes em massa, doenças e forças do destino. Depois de ouvir tudo calado, a primeira reação de David é ordenar a seu filho: “não tome nenhum outro gole dessa água” e o garoto joga fora o resto da bebida de seu copo.

Naquela conversa, todo o plot do filme foi agressivamente exposto. A fala de Elijah é, na verdade, um resumo daquilo que será revelado no final do filme – a tal “surpresa” que o público espera de Shyamalan desde que ele cometeu O Sexto Sentido (1999). Muita coisa está em jogo nesta cena e, apesar disso, M. Night escolhe não expandi-la – pelo contrário, ele restringe o espaço deste que, segundo o passo-a-passozinho do Syd Field, seria o tal “primeiro ponto de virada” do roteiro. Mas esse ponto fica só na promessa, pois há uma preocupação ali que ultrapassa a importância do conflito ou sua resolução: o filho de David não deve beber nenhum outro gole da água oferecida por Elijah.


“Se existe alguém como eu no mundo, e eu estou de um lado do espectro, será que não há alguém que, diferente de mim, seja o oposto? Alguém que não fica doente, que não se machuca como os demais? O tipo de pessoa de quem contam as histórias em quadrinhos. Uma pessoa colocada aqui para nos proteger, para nos guardar”.


“Joseph, não tome nenhum outro gole dessa água”.

Esta foi a passagem de um filme de Shyamalan que primeiro me chamou a atenção para o elemento mais importante de seu cinema, a meu ver: a noção de paternalismo e do pai ocidental. Muito mais que pela reflexão acerca da ficção no cinema, sua obra é ligada sobretudo pelos personagens masculinos e seus papéis enquanto figuras paternas.

E se Almodóvar é o cineasta das mulheres, Shyamalan é definitivamente o dos homens, me parecendo justo titular desta forma por duas razões. Primeiro: na obra de M. Night, o gênero masculino, na figura do pai, é sempre isolado como aquele que enfrenta sozinho os desafios. Seja o dr. Malcolm (Bruce Willis) em O Sexto Sentido [cuja relação com Cole é profundamente paternal] ou o ex-padre Graham (Mel Gibson) em Sinais, os homens são seres inabaláveis em sua solidão – não há outro que possa enfrentar as ameaças [fantasmas, aliens, scrunts etc.] senão eles mesmos e, portanto, também não há outro cujas virtudes apareçam reluzentes quando no triunfo final. A superação da crise, em Shyamalan, acontece em esferas bem particulares, que abrangem a família como um lugar, mas o homem-da-casa como unidade.

É sintomático desta solidão a distância que existe entre a mulher e o homem em todos estes filmes, o que confirma o “por si” no qual se acha a figura do pai. Esta distância pode vir da morte [O Sexto Sentido, Sinais e A Dama na Água], da falta de diálogo [Corpo Fechado] ou da timidez [A Vila], mas está sempre lá, e isto porque Shyamalan demonstra interesse somente pelo o que faz o pai; a consciência masculina e paternal é o seu campo por excelência.

Segundo: o homem shyamalaniano é criatura de uma outra, um alguém por um outro alguém – que não é principalmente a mulher, mas a criança. Se é a cria quem faz do homem pai, nada mais justo que desafiá-lo justamente a partir daquilo que ele é capaz de fazer pelos filhos.

Mas daí aparece a seguinte questão: como salvar minha família daquilo que eu não compreendo? As estórias de Shyamalan, como já sabido, trazem o fantástico para o nosso mundo. Estas criaturas e poderes fracionam a realidade em uma confusão de conceitos que se perdem ou se inauguram, provocando um violento “desarmamento” da humanidade. Ninguém sabe ao certo o que está acontecendo e, por esta razão, não há uma defesa possível contra este desconhecido. E mais: Shyamalan pega esse monstro do além, coloca dentro de casa e diz: se vire! Mostre do que você é capaz! Assim, tudo o que resta para Malcolm, Graham e todos os outros é seguir seu instinto e responsabilidade paterna e salvar suas crianças, por mais humilhante que seja o inimigo e por mais desesperadora que seja a solidão de sua tarefa. Seus filmes são legítimos defensores deste instinto e acreditam abertamente nessa ligação entre as pessoas, tão sobrenatural quanto o são os fantasmas e alienígenas.

Este tal apego pelo fantástico, usado pelas distribuidoras para vender Shyamalan como um autor de gênero, é na verdade um desapego do diretor, visto que seus filmes não explicam porra nenhuma do elemento extraordinário [com exceção talvez de A Vila], pois ele realmente não interessa; é apenas circunstância de uma vivência muito maior, um sobre-humano que sobre-humaniza o meramente humano. E este é o traço que faz de Shyamalan o maior autor do cinema americano atual: sua leitura do homem/pai a partir de seu poder, ou melhor, de seu instinto em ser o que é. Pois ser pai não é pouca coisa.

[continua...]

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Domingo, Abril 27, 2008







Ricardo Della Rosa, cinematographer de O Passado - o melhor filme de todos os tempos da última semana.

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Terça-feira, Abril 15, 2008

Ontem vi meu primeiro Mario Bava. E como eu ainda não fui para o segundo, evitarei soltar algum julgamento de valor ou dizer se o tal filme presta ou não, visto que ainda não sei bem quem é esse sujeito e o que ele faz.

Mas na ocasião, me peguei refletindo sobre esta prática de cinefilia que é a retomada de outros momentos e histórias do cinema, não como fruto de um acaso [quando vemos estes filmes na tv, por exemplo] mas de uma busca bem específica. Geralmente, esta busca começa com alguma leitura [ou aula, palestra, entrevista etc.] e a partir das informações e novidades que absorvemos dela, saímos por aí feito loucos, procurando por filmes, diretores, roteiristas e elencos que não pertencem ao nosso espaço e época, cujo “momento” nos escapou da vivência e, por esta razão, chegamos a eles sempre com algum preparo.

Penso eu que este tipo de encontro com o cinema – quando o espectador já está “armado” com um histórico, a “ficha criminal” dos filmes – será sempre complicado do ponto de vista da opinião [me refiro à crítica, aos debates e ao que nós fazemos em nossos pequenos blogs], justamente porque nos faltou, por motivos lógicos, viver a hora e a vez destas obras. E é impossível recuperar ou emular esta presença compartilhada entre o filme e o espectador, me parecendo ser pura besteira quando ouço alguém dizer algo como “tentem se imaginar nos anos 20 e o impacto que seria ver O Encouraçado Potemkin naquela época”. Não dá, ninguém consegue. A vivência, e os filósofos dizem isso, é uma coisa intransponível de corpo, espaço e tempo.

Por isso, sempre quando chegamos a algum filme motivados por um interesse específico e puramente cinéfilo, um fator importantíssimo nós já perdemos enquanto espectadores: o choque que ele deu na galera quando imerso bonitinho em seu contexto. E isso acontece não somente porque temos informações sobre seu passado, mas porque já vimos, lemos, ouvimos e experimentamos as coisas que nosso tempo nos ofereceu – estas sim nos chocaram.

Neste sentido, conhecer Mario Bava 50, 60 anos depois será sempre uma experiência desprovida de nostalgia, saudade ou referência, já que estaríamos muito “contaminados” pela nossa época, da mesma forma que tais filmes estão eles próprios “contaminados” por uma outra. Como poderei me surpreender com a utilização inovadora das cores por Mario Bava, quando antes eu já estava surpreso com Almodóvar ou mesmo com Alice no País das Maravilhas [Disney]? Ele pode até ser o mestre, o fodão que inspirou toda uma geração, mas eu não vi nada disso acontecer pois peguei o bonde andando.

Ah, o filme que vi foi Sei donne per l’assassino (1964). Vejam aí que beleza:







PS1: este é um blog de cinema, caralho, e não de filosofia.

PS2: agora eu vi, o texto ficou bem perigoso. Mas vale como provocação mesmo assim.

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Sexta-feira, Abril 04, 2008






Cara, eu odeio essa mulher. Toda vez que re-vejo Donnie Darko me dá vontade de atirar o controle remoto na tv quando ela aparece.

Dá nela, Chucky!





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